terça-feira, 31 de maio de 2016

paisagens do tempo

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Naquela data dormi com com a lembrança de um sorriso, desses que a memória engaveta. Bradando de dentro para fora, o sorriso não me foi dado, eu roubei de alguém e de um espaço.
O lugar ofertava resguardo aos que nele acolhiam-se. Era um lar para idosos. Quando chegamos, as paredes, de uma cor cinzenta, me pareceram, de fato, cinzas, um labor de anos, um terreno de brasa, sob um sol crestante. Era o calor. Estava muito, muito quente. As ruas vaporavam... O céu limpo mergulhava no amarelo do sertão, folhas fugiam tranquilas pelo chão comprido e as árvores, quase todas nuas e sozinhas, derrotavam a manipulação fraca daqueles ventos. O sertão em versos. Uma aquarela. 
Adentramos na instituição passando por um longo corredor que nos levou ao primeiro cômodo da ala feminina. As formas materiais comprimiam-se para caber no vão quadrado. Uma janela e um telhado branco grudavam-se à parede em perfeita simetria com a porta. Me lembro de uma brisa pausada por entre os tecidos da cortina que não inibia uma quentura tátil, nem nesgava grande abertura para que os olhos vissem a beleza do dia. O pequeno ambiente era cortado em três, dividido para cada uma de suas residentes. Ao lado de cada cama havia uma mesa de cabeceira com pertences que davam uma miúda ideia dos traços, saudades e do que faziam dia a dia aquelas mulheres.
Não demorou muito para ganharmos companhia e mimos. Hospitaleiras e gentis, de diversas formas algumas das internas se esforçavam para agradecer nossa presença. Chamou-me atenção, por esse motivo, os fios brancos e compridos de uma senhora recolhida em uma cadeira de balanço. Apática à nossa presença, não fomos, em momento algum, capazes de perturbá-la ou corrompê-la naquilo que fazia. Sobre sua cômoda estava uma cesta de novelos e um porta-retratos com a foto de uma criança risonha. Entrededos, duas alianças. Sobre a cama, cuidadosamente posto, ressoava o som ritmado e profundo de um rádio velho. O trinar das notas abduziam aquela alma humana. O encanto da música suavizava o talhe, os sentimentos e pensamentos. Era perceptível! As durezas e rugas do seu corpo repousavam, desenhavam, junto ao cântico, uma beleza indefinível. A matéria e sua imaterialidade. Eu não conseguia me mover. De repente, no entanto, o rádio começou a tossir, perdendo vida. A música tremulou até extinguir-se e chiar. O rosto da senhora escureceu e trovejou. As rugas no canto do olho mudaram de posição. A velhinha de cabelos brancos transformou-se, reclamava, invocava o regresso da melodia.
Um desespero tomou conta do meu corpo. O que eu faço? O que eu faço? Que injusto! Volta, volta, volta! De súbito, quando eu estava quase indo até ela, a música renasceu. Os olhos desejantes daquela senhora rebrilharam e agradeceram o retorno do velho amigo, talvez o único amigo. Ela reacomodou a cabeça na cadeira, fechou novamente os olhos e sorriu.
Jamais nos viu. Mas eu pensei, durante dias, naquele sorriso. Sorriso que se somou a questionamentos-deduções filosóficas-ontológicas-poéticas e não-conclusões. 
Há de ser que o isolamento seja arrebata*dor. Que vidas sejam fechadas e sejam conduzidas por pessoas estranhas. A imensidão do (auto)encontro, todavia, faz-se voo. Até o vazio pulsa, se expande. Alma é rara.
Nós “somos” e por isso vivemos. Talvez seja essa a condição que faz do ser humano um ávido eterno por sua salvação. 




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