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chovia em alguma parte...

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chovia em alguma parte perto de ti. ventava quente nas velhas ruas que me estavam perto. ao ser tocada pelo vento enquanto o sol tecia seu verso diário de despedida lembrei-me do teu sorriso. sorriso que faz minha pele arder de desejo... numa necessidade pelo toque. pelo olhar. pela entrega.
um esboço de noite pinta por entre as serras.  vou-me para dentro.  o relógio amaina o tempo.  flutua. 
aqui, silêncios.  meus. 
uma olhadela pela janela e o amarelo fraco ainda está no dossel da árvore.  as crianças ainda brincam com a pipa. ela ondula e mergulha no céu farfalhando o vento, abismando movimentos rebeldes. tenta se libertar do pendulo inverso. lembrei-me das pipas que eu fazia também criança. de como também margeava a rua. mapeava o céu. pouco a pouco amando o azul mais. 
a casa da frente está fechada.  não viu a luz do sol hoje.  o livro que levei para fora é do gauche. mais uma rosa desfolha-se em palavras.  ... tenho vontade de te escrever. tenho vontade de estar em outro lugar mesmo amando…

é tudo de alguma saudade.

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Sábados eram, por direito, das avós. Pela tarde daqueles antigos dias íamos, eu e meu pai, levar meus avós de volta ao sítio. O carro ganhava os desenhos da velha estrada mais uma vez enquanto uma fina chuva de poeira tamborilava no ar, itinerante.. Vovó no banco da frente de vez em quando me olhava com olhos-sorriso. Sertão no encobria e perto da porteira eu sempre deixava um pouco mais meus olhos nesse amarelo e nessa árvore solitária. Com que idade a poesia nos é desperta? [estado permanente da alma]. Chegávamos: sítio, quintal imenso. Tomava café nos batentes da cozinha e entar[descia] devagar – até hoje gosto de tomar café debaixo do sol. Corpo permeado, arvorado: amor, cores, águas, ruídos, mato, tempero, céus, liberdade, infâncias.. voltávamos pra cidade. Eu sempre com alguma fruta na boca. Minha vó, meu avô e meu tio ficavam nos olhando até que sumíssemos no nosso retorno. Eu também os olhava. Coração cheio. Uma paz do tamanho disso tudo.






paisagens do tempo

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Naquela data dormi com a lembrança de um sorrido, desses que a memória engaveta. Bradando de dentro para fora, o sorriso não me foi dado, roubei de alguém e de um espaço. O lugar ofertava resguardo aos que nele acolhiam-se. Era um lar para idosos. Quando chegamos, as paredes, de uma cor cinzenta, me pareceram, de fato, cinzas, um labor de anos, um terreno de brasa, sob um sol crestante. Era o calor. Estava muito, muito quente. As ruas vaporavam. O céu limpo mergulhava no amarelo do sertão, folhas fugiam pelo chão comprido e as árvores, quase todas nuas e sozinhas, derrotavam a manipulação fraca daqueles ventos. O Seridó em versos. Uma aquarela. Adentramos na instituição passando por um longo corredor que nos levou ao primeiro cômodo da ala feminina. As formas materiais comprimiam-se para caber no vão quadrado. Uma janela e um telhado branco grudavam-se à parede em perfeita simetria com a porta. Lembro-me de uma brisa pausada por entre os tecidos da cortina que não inibia uma quentura tá…

O barro de que somos feitos.

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Nas minhas veias, pessoas, memórias, tempos, espaços.
“Um ser humano propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de remos, de montanhas, de naves, de ilhas, de habitações, de instrumentos, de pessoas. Pouco antes de morrer, analisa o labirinto de linhas desenhadas e vê, surpreso, a imagem do teu rosto." – Borges
Naquelas noites, os rituais mudavam. O chapéu de palha estava molhado. O alpendre,suspenso pelas velhas colunas crestadas, crestadas como a cor das telhas,entendia-se e avançava sobre o beiral do telhado cobrindo a casa e as nossas cabeças. À nossa frente, o teto do mundo, o céu, deixava cair, tempestuoso e simples, seu líquido puro.O candeeiro assentado no banco de cimento iluminava apenas os rostos de quem eu amava, acendia apenas o necessário. O cheiro do querosene singrava o ar, tocava o frio. A mudez humana justificava-se no repouso dos olhos. Nos ouvidos, a sagração da sinfonia natural das coisas. Escutávamos a pr…

Professora esperança

Sempre que releio o poema “a Flor e náusea” de Drummond avisto-me naquela sala de aula. A lembrança é límpida e forte! Reescuto sua voz abraçando aquelas palavras e soltando-as, como quem liberta algo seu para o mundo. Naquele dia, segurei firme na ponta da carteira e não chorei por fora, mas dentro de mim sentia a pungência de um golpeio. Era o verbo se fazendo carne. Era essa força misteriosa, de densidade e pesos tão individuais, porém humanos, porém comum a todos, sendo sentida em um contexto novo, contexto de injustiças. E o cenário era uma escola pública, uma professora afinando vozes poesia. Parabéns, mestre Jaécia! Sinto orgulho! Eu lhe agradeço, como aluna, por ter escolhido a educação que liberta! Pelo olho no olho. Por ver o processo educacional em seu escopo humanizador, emancipatório, de autoreconhecimento e consciência do outro [...], que alimenta nosso “olhar”, nosso “ser” para que vejamos/sintamos/sejamos melhor a vida. Pela coragem de lutar, como devemos fazer sempre, p…

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Não raro, me pego estudando o céu. Ouvindo-o. Questionando-o. Hábito comum aos meus... Herdei a prática, especialmente, do meu avô paterno, Basto. Homem legítimo do campo, tinha os traços típicos da sertania, dos sertanejos vernáculos do nosso lugar, hábeis espíritos agrestes, e peritos da previsão invernal. Assim também era meu avô materno, cujo nome também era Sebastião... E assim eram e são tantos outros e outras.
Acari acordou banhando-se. Despertamos com a chuva...  Contemplei enquanto pude. A expectei. Até deixei um pouco de lado o resto do cenário. Nem procurei o nascer do sol, pra minha futura surpresa. A chuva, o que ela afetava, acabou sendo o personagem principal do alvorecer.
Assim tem sido, todavia.
Cada mínimo indício de chuva tem acalentado nossa esperança, seja ela pelo que for. Sofremos com a secagem das águas no nosso lugar, mas o devagar dos sons, cores, cheiros, o tinir da água lavando os telhados, o pé de seriguela encharcado vestido de gotas, a água ladeando as ruas, o…

infinidade

O sol surgia preguiçoso no céu que acordava. Os raios ainda madrugados ultrapassavam o telhado... Os passarinhos cantavam seu retorno, os galos trabalhavam... pra mim, era o dia ganhando movimento, ruídos, vibrações. Mais uma vez estreando seus contornos visíveis e invisíveis... Eu esperava outro sinal para levantar da rede. E lá estava ele em desenhos de som: O chinelo se arrastava barulhento pelo caminho, a passos que não desistiam nunca. Era isso a minha avó Ana. viVer a vida, sua beleza, sem desistir. Eu pulava da rede, passava por baixo das outras, e corria pra cozinha aproveitando o cheiro espalhado do café. Lá, aquele sorriso falava... ... Há pouco mais de um ano nos despedíamos da guerreira que fora minha vó dona Ana. E o que sinto, não sei dizer. Ainda é dor. Mas os rastros libertários de amor iluminam as ruas escuras da ausência, quando a saudade pesa.
--- A senhora sempre entendia os meus maiores sonhos, meus mais discretos sonhos. Quem sabe um dia eu consiga expressar a sua p…