quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

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Não raro, me pego estudando o céu. Ouvindo-o. Questionando-o.
Hábito comum aos meus... Herdei a prática, especialmente, do meu avô paterno, Basto. Homem legítimo do campo, tinha os traços típicos da sertania, dos sertanejos vernáculos do nosso lugar, hábeis espíritos agrestes, e peritos da previsão invernal.
Assim também era meu avô materno, cujo nome também era Sebastião... E assim eram e são tantos outros e outras.

Acari acordou banhando-se. Despertamos com a chuva... 
Contemplei enquanto pude. A expectei. Até deixei um pouco de lado o resto do cenário. Nem procurei o nascer do sol, pra minha futura surpresa. A chuva, o que ela afetava, acabou sendo o personagem principal do alvorecer.

Assim tem sido, todavia.  

Cada mínimo indício de chuva tem acalentado nossa esperança, seja ela pelo que for. Sofremos com a secagem das águas no nosso lugar, mas o devagar dos sons, cores, cheiros, o tinir da água lavando os telhados, o pé de seriguela encharcado vestido de gotas, a água ladeando as ruas, os sopros frios do vento, os besouros e mariposas que trocam de casa, os trovejos e lampejos e até os dias de céu carregado insistente em não deixar os pingos ruírem... têm iluminado essa esperança apreendida, aprendida. A esperança de que esses são os prelúdios de uma invernia. O inverno que esperamos, desejamos. Mas que se não forem, esperança de que a vida continuará costurando seus milagres em suas cores, cheiros, sons, sentidos...

A simplicidade que tudo acerta.

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Sou grata à vida pela tríade em que fui criada: Sítio-Acari-Gargalheiras. São meus lugares.

Há pouco tempo, quando tive valentia suficiente para visitar o açude gargalheiras, emocionei-me, à primeira vista, com as pedras descobertas, secas no chão longo longo e ávido por água. Conheci, no atrevimento primário da infância, o relevo de muitos daqueles rochedos. Tenho lembranças fidedignas daquelas fisionomias. Seus lugares mais íngremes, e os estáveis. Muitas vezes calejei as mãos de tanto me moldar a essas ingremidades, subindo as pedras para depois transpô-las em saltos nas águas. Do mesmo modo acontecia no sítio. 

Com aquela secura, no entanto, vi um mundo desconhecido. Fiquei silenciosa como as pedras.

Mas tenhamos esperança. Que as chuvas pintem a paisagem do nosso Sertão, dos nossos lugares, que alimentem as águas perseverantes e magras dos nossos açudes, barragens, barreiros, rios e vínculos, depois urda-os nos mares que banham as crianças nas manhãs perpétuas de sete de abril.  

   


2 comentários:

  1. Parabéns prima, pelo lindo trabalho, não conhecia seu blog, acredite, fiquei emocionada por cada palavra citada. Lindos textos, apaixonada por tudo.

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  2. Prima, que felicidade seu comentário! Muito, muito obrigado! Bom demais receber suas palavras!
    Saudade enorme de todos vocês! Os amo muito! Abraço forte!

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