sábado, 18 de outubro de 2014

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Sinto falta do aconchego daquele tempo.
Do balanço na rede. Do olhar azul e tranquilo que por vezes me botou pra dormir.
Sinto falta do leite atenciosamente morno. Do gosto paciente nos cuidados... Do agir tão delicado e afetuoso.
Sinto falta do cheiro do café. Do feijão. Do “Luaninha”. De vê-la pela janela chegar.
Falta de sentir medo e do lençol que misteriosamente me acalmava. Do relógio na parede, do rádio, do chão gelado, da simplicidade daquela casa.
Sinto falta de percorrer ou nem notar as horas deslizando, fugindo propositalmente nos domingos.
Falta daquele tempo em que nada faltava.
Um tempo em que mais gente me amava. Que não existia saudade.
Não existia ausência.
Sinto falta da organização daquele antigo guarda-roupa. Da janela envernizada. Da árvore e das castanholas.
Sinto falta das brincadeiras que eu inventava. Do perfume mais inconfundível. Do banheiro com luz divisora, dos vaga-lumes e até das batalhas entre grilos e lagartixas.
Sinto falta das noites que me viram crescer. Do amor ofertado. Das histórias que eu criava, das que eu te contava. De ver o dia nascer e refletir no açude... Para logo mais morrer entre as serras mais lindas de uma vila. Aquela vila de trabalhadores.
Sinto falta do caráter, do sorriso e risada, dos costumes. Falta de subir na construção para olhar o céu e suas cores, os pássaros e seus sons e ouvir os gritos de achego: Menina, desça daí.
Sinto falta das vidas que conheci através das histórias, do abraço, da benção, da ternura.
Falta da fé, da simplicidade, do modo de falar, da alegria, da solicitude e luz. Dos sábados rotineiros em que íamos à feira-livre e eu podia oferecer minha ajuda... Sinto falta daquele tempo de muita paz e pouco conflito. Tempo de rara espera e muitas aventuras. Quando desfiávamos, eu e você, conversas que iam para longe. Saudades que me confidenciava. Sinto falta da sua permissão. De vê-la, com os olhos azuis atentos no sofá, me ouvindo contar histórias, assistindo atentamente minhas apresentações infantis. Falta daquele povoado que irresistivelmente se transformava em mundo. Das velhas árvores que tão agilmente escalei. Dos vícios e liturgias exibidos na calçada... Falta da nascente memória. Desse tempo que está aqui. Um dos fios que me pertence, e me faz. Fatos e figuras que não deixam de existir.  
Sinto falta daquele céu de incontáveis estrelas. Da noite reservada para as crianças. Falta do teu olhar feliz na tua janela ao nos receber. E o contraste tardio do mesmo olhar agora um pouco triste ao nos despedir.
Meu amor se alimenta todos os dias.
Mas sinto falta daquele tempo que passou. Um tempo de quintal, de terra, de natureza, de terreiro, de liberdade... Um tempo de avó.
E que fará muita falta nos tempos que ainda virão.
...
Quatro anos sem aqueles olhos azuis me olhando. Caridosos, carinhosos, atentos. Olhos da minha avó Toinha, que tudo que me deu foi amor e desse amor me ensinou o que é vida, o que é vi(ver). Em 2010, quando a senhora partiu, sentimos que não éramos donos de nada. Que levava consigo até os presentes que nos deu. Hoje, agradecemos pela beleza tão incólume e profunda deixada. Ela se prolonga no tempo. 


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