[...] Minha tia e sua máquina de escrever. Ela usa óculos. Está concentrada. E escreve... Deixando correr pela casa, entre canos e cimento, tijolos, parede e fundamentos, e também na poeira tão velha que descansa lá nos quartos lá de baixo, e nas dobradiças espelhadas à superfície das portas, e – sobretudo – no meu coração encostado no chão enquanto eu brincava, e por todo o casario vermelho porque sol... o ressoar do timbre pesado-leve dos acordes-letras. Eu criança parava. Imaginava... Que palavras partejava ela e a máquina? Que vida nascia? Pouco a pouco amando mais a palavra. Enxergando o seu milagre. E minha tia, num repicar sereno de letras, números e símbolos cifrados no silêncio barulhento da máquina-incrível... devia estar a fazer algo do seu trabalho para a escola. Não sabia que afagava com leveza sonhos futuros. Não sabia que, na inesgotável paisagem do tempo, tornava-se poema.
Sobre um determinado espaço geográfico as pessoas criam laços afetivos, culturais, étnicos e etc. que promovem ao longo do tempo e, portanto às gerações sequentes, um destino semelhante. Essa analogia constrói o que chamamos de identidade mútua ou nação e são desses conceitos que se edifica um país, um estado, ou uma cidade. Todas as partes do globo terrestre possuem sua história. Acari, minha cidade, também. Com isso, todos nós acarienses somos proprietários de um estoque de bens em comum, sejam eles materiais, imateriais ou naturais, que pertencem a nossa cidade e que representam um valor singular no nosso coração se formos realmente nacionalistas e dignos de expressar uma identidade mútua. Como em cada canto do mundo, a diversidade de valores, conceitos, ideias e pensamentos divergentes também coexistem. A dinâmica da sociedade é aprender a conviver em harmonia e de forma socialmente comunitária mesmo existindo essas dessemelhanças no dia-a-dia. P...
Era domingo e o céu invernal meio alaranjado fez-me ver aquela terra como um sítio arqueológico de minha própria vida. Parece que cada árvore, compartimento, estrada e recanto oferecia um vestígio do que foi minha criação. Com o sol quase em total epílogo, vi nascer uma lua cuja origem me pareceu teórica demais. Nasceu no leste, vai desaparecer no oeste. Pensei. Porém, houve um tempo em que esperar a total escuridão da noite no sítio dos meus avós representava a êxtase das brincadeiras, o surgimento voluntário dos primos que viravam seres híbridos, ou seja, os lobisomens, na tentativa de suscitar medo, concebia a certeza do dia seguinte onde tínhamos uma jornada de realizações em que nenhuma incorporava responsabilidades. As chuvas torrenciais simbolizavam primeiramente súplicas, com o consentimento dado, à natureza proporcionava o resto. Com certeza era a liberdade. Debruçar-me sobre os perigos que a vida apresentava de forma tão intencional, sistemática e inoc...
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