[...] Minha tia e sua máquina de escrever. Ela usa óculos. Está concentrada. E escreve... Deixando correr pela casa, entre canos e cimento, tijolos, parede e fundamentos, e também na poeira tão velha que descansa lá nos quartos lá de baixo, e nas dobradiças espelhadas à superfície das portas, e – sobretudo – no meu coração encostado no chão enquanto eu brincava, e por todo o casario vermelho porque sol... o ressoar do timbre pesado-leve dos acordes-letras. Eu criança parava. Imaginava... Que palavras partejava ela e a máquina? Que vida nascia? Pouco a pouco amando mais a palavra. Enxergando o seu milagre. E minha tia, num repicar sereno de letras, números e símbolos cifrados no silêncio barulhento da máquina-incrível... devia estar a fazer algo do seu trabalho para a escola. Não sabia que afagava com leveza sonhos futuros. Não sabia que, na inesgotável paisagem do tempo, tornava-se poema.
Era domingo e o céu invernal meio alaranjado fez-me ver aquela terra como um sítio arqueológico de minha própria vida. Parece que cada árvore, compartimento, estrada e recanto oferecia um vestígio do que foi minha criação. Com o sol quase em total epílogo, vi nascer uma lua cuja origem me pareceu teórica demais. Nasceu no leste, vai desaparecer no oeste. Pensei. Porém, houve um tempo em que esperar a total escuridão da noite no sítio dos meus avós representava a êxtase das brincadeiras, o surgimento voluntário dos primos que viravam seres híbridos, ou seja, os lobisomens, na tentativa de suscitar medo, concebia a certeza do dia seguinte onde tínhamos uma jornada de realizações em que nenhuma incorporava responsabilidades. As chuvas torrenciais simbolizavam primeiramente súplicas, com o consentimento dado, à natureza proporcionava o resto. Com certeza era a liberdade. Debruçar-me sobre os perigos que a vida apresentava de forma tão intencional, sistemática e inoc...
A palavra e seu poder diverso de encaixe. A seguir repasso o escrito que fiz para pronunciar na solenidade da minha formatura de segundo grau, a qual fui escolhida para representar a oradora das turmas. Foi com muito carinho e palavras escolhidas pelo meu coração que construí este texto e o proferi na cerimônia de colação de Grau das turmas da Escola Estadual Professora Iracema Brandão de Araújo. Primeiramente gostaria de agradecer a presença de todos e convidar aos meus colegas e os demais presentes a uma reflexão. Esforcei-me para que minhas palavras expressassem o pensamento das Turmas. Ao tentar iniciar este escrito me perguntei: Do que vamos sentir saudade? Fiquei muitos minutos perplexa pela ideia de que os sentimentos negativos, por tudo que passamos este ano, teria me tirado o encanto da conclusão do segundo grau e me vi num entrave de palavras. No entanto, resolvi olhar pelo começo de tudo. E nesta viagem encontrei todos vocês. A minha turma foi reunida como ...
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