sexta-feira, 7 de julho de 2017

linha tênue

***
Tenho extrema dificuldade em abandonar meus fascínios, meus imãs. Quando algo me encanta quero vivê-lo, mesmo em hiatos, com altitudes e extremismos. Ontem, enquanto folheava as histórias de "A Fazenda Africana", de Karen Blixen, lembrei-me de quando a conheci. Na narração de Rubem Alves, "A festa de Babette", conto da autora, parecia indispensável para aquele momento. Comprei o livro, li biografias e, no mesmo dia, estava assistindo ao filme numa plataforma digital. Devo tê-lo visto umas oito vezes naquela semana. Recordo de encontrar algo a mais em cada nova experiência... Quando o livro chegou, o li rápido. Levei-o para uma tarde de domingo no sítio e, sendo um conto curto, a leitura correu rápido. 

Antropofagia, porém, esta narrativa tão pequena e tão vasta. Quis mais. Comprei os outros livros da autora e desde então são um dos meus quartos escuros literários. Como gosto de sentir, a luz vai se propagando e sua margem de conhecimento cresce com o desconhecido, fazendo notar a tecitura que une antônimos, fazendo ver que o conhecimento acende na mesma proporção que o desconhecer. Tênue linha. O que é "mágico", como sempre me faz pensar Rubem Alves. O que não cabe às palavras.

Sobre A festa de Babette, posso até ouvir os dois primeiros compassos do dueto de Don Giovanni e Zerfina de Mozart, lembranças assinadas numa carta de Achille Papin para sua inalcançável Philippa. O amor que não viveu, a soprano que cantou para as regiões geladas da Noruega, incapaz de desistir do único caminho que lhe parecia possível, escondida pelas montanhas, afastada por um braço de terra e um mar. Philippa se calou para o mundo, não foi a artista que o universo queria que fosse. Papin acreditou no paraíso porque ela existia... E assim os encontros se fazem maiores. A vida une espíritos diferentes, habitados, no entanto, pela arte: essa força misteriosa, de densidade e pesos tão individuais, porém humanos, porém comum a todos. A MARAVILHOSA-INCRÍVEL Babette (assim, em letras garrafais mesmo), despe as formas incontornáveis da existência dessa força e a beleza que há nos olhos daqueles que vivem intensamente essa linguagem. 

Epifânico.


Nenhum comentário:

Postar um comentário