A mão que semeia a terra


Sou jornalista. Filha de pais comerciantes... Confesso que não houveram muitos desafios na minha vida. A condição financeira e social da minha família facilitou as etapas do meu desenvolvimento pessoal e humano. Embora pudesse ingressar na classe patronal administrando as empresas dos meus pais, preferi seguir a carreira jornalística. Aos 21 anos me formei e fui empregada numa revista casuísta, que intercedia, rigorosamente, a favor de elucidar a realidade social. Era dirigida por um conhecido do meu tio, que não hesitou em aceitar meu currículo. Iniciei minha carreira eufórica por prestígio e destaque nas redações. Intimamente, julgava-me altruísta. Uma pessoa consciente, religiosa, com opinião formada e relutante aos problemas sociais. Estava no lugar certo, arrazoava...
A minha primeira pesquisa na revista mostrou-me que eu vivia em um universo fabulado. Alheia à realidade ampla.
Parti para o que seria, de fato, meu primeiro desafio longe da comodidade da minha casa. Viajei ao nordeste. E me hospedei na casa de um agricultor chamado Luís José que vivia com sua esposa Maria Izabel. No início, achei que seria um serviço fácil. Precisaria, apenas, fazer uma análise da seca que assolava a região há quase um ano e, além disso, de como o fenômeno climático interferia na vida da família de Luís e Izabel.
A história dos dois era fantástica. Notoriamente, tinham os nomes mais comuns do Brasil e um dia a dia que eu desconhecia totalmente... Casaram-se muito jovens sem um conhecer o outro e viveram baseados no companheirismo. Tiveram quatro filhos, desses quatro, três morreram ao nascer.
Perceptivelmente a seca era ágil e rápida em acabar, cizentar a paisagem e lhe dar um ar cáustico, sofrido. O olhar preocupado se seu Luís ao apontar para a terra que estava mais a frente lembrando que tudo ali era verde e mais vivo revelava muita saudade, e aquilo me solidarizou.
Ele não precisou me dizer que teve uma vida difícil.
Tentei começar, tecnicamente, uma entrevista. E ele, de forma espontânea, contou-me um pouco da sua história.
Disse que frequentou a escola e que sua mãe era professora... Acordava antes do sol amanhecer porque ia para o colégio a pé com seus irmãos, ou usava os animais, até que um dia, seu pai conseguiu uma bicicleta... Não concluiu todo o ciclo escolar, faltou muito pouco, mas não mostrava arrependimento. Mesmo sem concluir, se comunicava corretamente. Frisou que nasceu para cuidar da terra e que pra isso não era necessário muitos anos de escola. “As pessoas saem do colégio quando estão prontas pra fase seguinte, comigo não foi diferente”, afirmou.
De fato, os conhecimentos empíricos eram mais que suficientes. Via-se pela forma inteligente e lúdica com as quais aquele senhor administrava sua propriedade, que não era preciso um certificado técnico para provar suas habilidades. Conhecia cada centímetro da terra. Posso afirmar que conhecia cada pedra, cada árvore... Amava os animais. Tudo era consertável e útil... Orgulhava-se do filho. Confidenciou que trabalhou mais pela vida dele que por sua própria. “O ser humano é falível, mas não pode ser com seus filhos”, garantiu. O filho, por sua vez, estava morando na cidade e exercia a profissão a qual era diplomado, medicina veterinária.
Seu Luís falou-me, enfim, sobre a seca. Explicou que a estiagem é diferente da seca. A seca é longa, a estiagem, por outro lado, não. Pôde presumir que o ano seria difícil... Assegurou-me que as previsões dos homens do campo eram mais seguras que as de um serviço meteorológico.  
E acrescentou um pouco emocionado:
A seca maltrata não só o espaço, mas também o espírito, o sentimento, o coração. A falta de água mata o cultivo, mata os animais, mata o trabalho e leva um pouco da gente ao passo que altera o que temos. Nós plantamos as sementes e com expectativa aguardamos o nascimento do fruto, mas ele não surge. É difícil não perder a esperança, aliás, é natural perder a esperança quando se luta, literalmente, contra o tempo. Os vizinhos permanecem até seus limites e depois fogem da seca, abandonam suas casas e suas dores; seguem para as cidades em busca de dias melhores com lágrimas nos olhos e muita tristeza na alma. O calor do sol intensifica o trabalho que já é árduo. Castiga a plantação, castiga a vida... Até o ar, que costumamos chamar de puro, muda. Torna-se seco e quente. Agradeço a Deus por ainda ter água de qualidade. Em alguns lugares a água vai evadindo-se, extinguindo-se, é dividida com os animais e aos poucos vai se tornando de péssima qualidade, inconsumível. Em todo canto que você olha há vestígios dessa triste realidade e são poucas as soluções. Confesso que não há um dia se quer que eu não sonhe com a chegada das chuvas e de um clima melhor. Manter minha propriedade até que isso ocorra é o que me energiza. Afinal, é preciso adequar-se a terra. Eu a valorizo. Foi aqui que construí minha história. Foi dessa terra que tirei meu sustento e mantive, dignamente, minha família. Procuro encarar a realidade como algo desafiador.  Apesar de tudo, é apenas um tempo ruim. Uma vez que este é meu lar não posso deixá-lo. O futuro preocupa. Em outra palavra, assusta. Mas faço de tudo pra ninguém notar... Gosto de acordar cedo, pastorar os animais, extrair o leite, limpar, plantar, juntar a lenha para o almoço. A luz, que demorou a chegar, é útil, mas até hoje prefiro dormir com a lamparina... Gosto de trabalhar e por fim tomar café com minha velhinha admirando o fim do dia. E nos feriados receber a família... Fazer o que eu gosto, faz valer tudo nessa vida...
Fiquei extasiada por alguns minutos e depois de um tempo em silêncio perguntei sobre a intervenção do estado no período de seca.
Disse-me com escárnio de quem não espera: O estado aceita o caso. A situação familiariza-se com uma ponte intransponível por ambos os lados. Do nosso lado podemos enxergar o fim da ponte. Há soluções, condições e dinheiro. Quem está do outro lado também nos enxerga, mas prevalece incomunicativo. Desvaloriza o problema, acumula o dinheiro, faz de conta que promove ações através de políticas públicas assistencialistas, mas é tudo destinado para a corrupção... Pensou e adicionou: Acho que seria mais satisfatório trocar o exemplo da ponte pelo de algumas espécies de pragas que conheço. Sabemos que elas existem. Estão ali interferindo de alguma forma negativa. Tirando algo nosso...
E acrescentou: Isso nos leva a pensar. Eu não ficaria bem com a sensação de dependência; aqui ainda há condições de sobreviver e recebo ajuda do meu filho. Mas em alguns lugares, onde a seca atinge mais forte e profundamente, existem inúmeras pessoas necessitando de ajuda, inclusive crianças... Há pessoas morrendo! O problema é muito mais amplo, cruel e difícil do que o estado pensa, e do que os outros, que não vivem a situação, veem pela tv.
Depois de um período olhando "para o tempo", seu Luís me convidou para entrarmos e tomarmos o famoso cafezinho admirando o por do sol entre folhas secas e grandes árvores ainda verdes. Dei um sorriso, ele também e saímos.
No dia seguinte parti. Me despedi e agradeci pelos aprendizados que me fizeram crescer humanamente. Reparei que seu Luís estava pronto para após minha partida ir trabalhar. Abraçaram-me com sinceridade e fui embora prometendo que voltaria quando tudo estivesse verde... Antes de virar o carro na porteira olhei para trás e vi os dois ainda em pé acenando para mim. Naquele momento já senti saudades... Após alguns minutos, não demorou muito para o céu escurecer com nuvens grandes e carregadas. Pensei alegre: Neste minuto seu Luís deve estar dizendo emocionado: eu sabia que ia chover!!...
Luana Cristina.

Esta é uma história irreal que retrata um pouco de uma realidade. A história de seu Luís se repete na vida de muita gente. São homens de esperança. Trabalhadores dignos. Com valores surpreendentes e admiráveis. Homens simples, exemplos de vida com verdadeira humildade que merecem nosso respeito e que, com certeza, poderiam ensinar muito para os ricos ostentados pelo poder público...
Luana Cristina.





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